Domingo à tarde. Vocês dois em casa, sem compromisso, pela primeira vez em semanas. Ela está no sofá. Você senta do outro lado.
O que não se resolve conversando
— Tem um minuto? Queria falar de uma coisa.
— O que eu fiz agora?
Repare na resposta. Você ainda não disse nada, e ela já sabe do que se trata — não do assunto, mas do tipo de conversa. Na experiência dela, quando você senta e pede um minuto, vem problema. Ela não está errada. Foi assim das últimas dez vezes.
Isso não é um problema de comunicação. É um problema de proporção.
A faixa do meio
Volte à pergunta do começo — quem está incomodado aqui. Ela tem quatro respostas, e esta leitura passa quase inteira em três: a outra pessoa está, você está, os dois estão. Falta a quarta — aquela que, numa relação que funciona, deveria ocupar boa parte do tempo.
Ninguém está.
— Essa música é velha.
— Muito.
— Mas é boa.
Isso não vai para lugar nenhum, e é justamente esse o valor. Gordon chamava essa região da janela de área sem problema, e dizia que é ali — não nas conversas difíceis — que boa parte da relação se constrói. É o tempo em que vocês conseguem simplesmente estar juntos, sem que a relação precise resolver alguma coisa. E esse tempo faz diferença quando aparecem os momentos difíceis.
Faça uma conta rápida com alguém importante para você. Quando foi a última vez em que vocês passaram um tempo juntos sem nada para resolver? Sem pauta, sem pendência, sem “aproveitando que você está aqui”?
Muita gente não encontra a data. E essa informação diz mais sobre a relação do que qualquer conversa difícil que vocês tenham tido este ano.
A tentação
E há um jeito bem comum de ir acabando com esse espaço sem perceber: aproveitar todo momento bom para trazer uma pendência.
Sábado, almoço bom, ele contando uma história do trabalho e rindo. Você pensa: agora ele está de bom humor.
— Que bom te ver assim.
— Pois é, a semana foi boa.
— Então, aproveitando: a fatura do cartão chegou.
(o riso acaba ali)
Funcionou — vocês falaram da fatura. E, se isso se repete, o bom humor perto de você começa a anunciar a fatura. O custo não aparece nessa conversa. Aparece três meses depois, quando o tempo leve acabou e ninguém sabe explicar por quê.
Se você tem uma coisa a tratar, trate — com hora e nome, não emboscando um sábado. E se o sábado for só sábado, deixe que seja.
Duas ressalvas, porque isso também vira dogma. Onde a proximidade é usada para medir ou cobrar depois, o tempo comum não repõe nada: é vigilância com outra roupa, e a pessoa faz bem em evitá-lo. E nem toda relação precisa de uma faixa do meio grande — um vínculo profissional funciona com uma pequena, e forçar intimidade ali incomoda todo mundo. O que não muda é: se a faixa for zero, o resto fica caro.
E se ninguém precisasse dizer nada
Agora uma intervenção simples e pouco usada.
Toda noite a mochila fica no meio do corredor, e você tropeça no escuro.
— De novo a mochila no corredor. Quantas vezes eu preciso pedir?
— Tá, tá. Desculpa.
(na noite seguinte, a mochila está lá)
Você pode fazer disso uma conversa melhor — e adiante tem como. Ou pode pôr um gancho na parede do corredor, na altura da mão de quem chega. O problema deixa de existir sem que ninguém tenha sido convencido de nada.
Gordon chamava isso de modificar o ambiente, e reparou que é o recurso que os pais usam com naturalidade quando o filho tem dois anos — tira-se o vaso do alcance em vez de explicar ao bebê por que não se derruba o vaso — e param de usar à medida que o filho cresce e eles passam a confiar mais em métodos verbais. A partir daí, quase tudo vira conversa. Há uma classe inteira de problemas que talvez nem precisasse virar conversa.
A reunião que azeda sempre no mesmo ponto, que é quando alguém abre o laptop. A conversa em casa que desanda sempre no mesmo horário, que é a hora em que todo mundo está com fome. A briga de toda manhã na hora de sair.
— Todo santo dia a mesma coisa.
— Que horas vocês começam a se arrumar?
— Sete e meia. A van passa às sete e quarenta.
Antes de escutar melhor ou de confrontar melhor, e antes de transformar o problema numa característica da pessoa, pergunte quanto dele está sendo produzido pelo cenário — e se o cenário pode mudar.
A mochila no corredor, duas vezes
É barato porque não depende de convencer, lembrar ou mudar a personalidade de ninguém. E é pouco usado por um motivo que vale dizer em voz alta: o gancho resolve o problema e não dá a satisfação de ter sido entendido. Quando a gente está incomodado, a gente quer que o outro veja. Às vezes o que a gente quer mesmo é isso.
Duas fronteiras
— Onde foi parar a minha mochila?
— Eu pendurei. Agora ela fica ali.
— Você mexeu nas minhas coisas?
Mudar o cenário do outro sem o outro é controle. O gancho resolveu a sua noite e criou um problema novo, maior, que agora tem a sua assinatura. O gancho combinado é cenário; o gancho imposto é a mesma briga com outro objeto.
E há cenários que ninguém nesta conversa controla. A escala, o orçamento, a política da instituição. Quem não decide não deve carregar a conta de não ter mudado — e transformar limite estrutural em falha pessoal é uma crueldade comum no trabalho, dita quase sempre com vocabulário de autonomia.
Para reparar nesta semana
Nenhuma das duas é técnica de conversa.
Qual é o tempo, com essa pessoa, em que nenhum de vocês está resolvendo nada? Se não houver nenhum, esse é o primeiro problema — e não o assunto sobre o qual vocês estavam brigando.
E, antes de melhorar o que você vai dizer: o lugar pode mudar?
Nem tudo se resolve mudando o lugar. Alguma coisa vai ter que ser dita.
continuar